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O próprio Salazar confessou à jornalista e escritora francesa Christine Garnier, que o entrevistou em 1952, a importância crucial de Maria de Jesus para o desempenho das suas funções governativas: «Depois de tantos anos, que sei eu da existência comum? Não uso porta-moedas nem dinheiro: onde é que eu gastaria as notas? Não escolhi nenhuma das minhas gravatas nem nenhum dos meus fatos. Não sei quantas camisas possuo. O poder absorve-me todo o tempo e todo o pensamento. Depois da minha chegada a Lisboa, a Maria encarregou-se de tudo o que eu tive de negligenciar. Livrou-me de todas as preocupações materiais. Conhece os meus assuntos muito melhor que eu. Vive a minha vida. Compreende? A sua intuição é tal que fareja os possíveis perigos, muito antes de eu ser avisado.»
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Apesar de nunca ter contraído matrimónio com o seu príncipe encantado, a história de Maria de Jesus Caetano Freire não deixa de ter o seu lado de Cinderela. Ao nascer de uma pobre família camponesa no lugar da Freixiosa (melhor dizendo, em Serradas da Freixiosa) da freguesia de Santa Eufémia, no concelho de Penela, distrito de Coimbra, pelas 14h de 20 de junho de 1894, nenhuma conjugação astral ou terrena apontaria para que a menina viesse a passar quase toda a sua vida adulta ao lado do homem mais poderoso de Portugal.
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A governanta tinha agora a oportunidade de expandir a sua criação doméstica ou intensificar a sua produção agrícola. Poderia o chefe mostrar-se desagradado, ele que até determinara a existência de galinheiros, horta e pomar em São Bento? Não fora Salazar que, com o advento da guerra, lançara a nível nacional a palavra de ordem «Produzir e poupar»? E não afixava o Ministério da Economia cartazes a dizer «capoeira povoada, riqueza amealhada»? Maria de Jesus não fazia outra coisa: «Chegou a haver 500 galinhas (existiam chocadeiras a petróleo para os ovos) em São Bento, além de perus, patos, pombos, coelhos.»
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A governanta permanece também como destacada angariadora de informações para Salazar. A todos os níveis, como o demonstra o diálogo que tem com o jornalista Fernando Dacosta:
«– O senhor doutor gostou muito do filme Música no Coração [estreado em 1965]. Até se comoveu...
– Foi vê-lo? - pergunto eu, surpreso, a D. Maria.
– Não. Eu é que o vi e lho contei, com todos os pormenores, como ele gosta de ouvir.
Apaixonado pelo cinema (...), Salazar afastou-se, no entanto, das salas escuras com o avolumar do trabalho e da curiosidade do público. (...) D. Maria e as amigas passaram, então, a deslocar-se, a seu pedido, às primeiras matinées, e a contar-lhe minuciosamente, aos serões, as histórias das películas por si escolhidas. Manta de lã nas pernas, bule de chá na mesa, Salazar deleitava-se com as aventuras, desventuras, a correrem, noite fora, em diferido pela sua imaginação.»
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O mistério, contudo, permanece, pois terá sido diferente a atitude de Maria de Jesus a fazer fé no que a própria disse mais tarde: «O Presidente da República chegou a pedir-me para contar ao senhor doutor que já não estava em funções. Disse-lhe que não. Pedi-lhe mesmo que ninguém o fizesse. Que esperassem. Uma corja! O senhor doutor havia-me relatado, há muito tempo (ele gostava de contar-nos, a mim e às meninas, coisas da História), que os russos, quando o Lenine estava para morrer, faziam todos os dias um jornal falso para ele ler e não saber o que se passava. Achei que podia poupá-lo. Se ele aguentou o país 48 anos, o país bem podia aguentá-lo algum tempo. Eu não sei se ele acreditou. Nunca me disse nada.»